Luiza Agostinho Penas
Suado, com o Sol forte perante sua cabeça, estava Flávio, chutando uma velha bola de futebol, para lá e pra cá, sem um objetivo concreto, estava pensando.
Foi interrompido por sua mãe, que o chamava para o banho. Ele recusou, deixando a mãe bem nervosa, que o ameaçou cortar-lhe o video-game se ele não fizesse o que ela pedia.
Ele queria tanto ver o pôr-do-sol, mas a mãe puxa o garoto pela orelha, que chora reclamando e esperniando. Sua mãe não era tão rígida assim antes da morte do marido, já foras o segundo. O primeiro, que morreu com uma doença estranha aí, ela teve um menino e uma menina, que já estão no extrerior trabalhando. E o segundo, que morreu muito cedo, teve Flávio, que estava perto dos 11 anos, este já morrera bem cedo, o Menino tinha apenas 1 ano e meio quando ocorreu, e que nunca entendeu o verdadeiro significado da palavra mãe.
Flávio sempre ia dormir cedo, cedo mesmo! Lá pelas 18:00h, por ordens da mãe. Que aliás era só isso que ela fazia, só dava ordens, nunca dava amor, carinho e nem apoio.
A noite, antes de dormir, o menino pegava aquela mesma bola velha e começava a conversar com ela. Sobre várias coisas, principalmente para reclamar da mãe. E a bola sempre concordava com ele, lógico, ele era seu dono, ela tinha que concordar.
A bola ia de segurança com Flávio para todo o canto, para a escola, para a casa da avó. Um monte de lugares. E era da casa da avó que Flávio mais gostava (e a bola também), pois ela contava sobre um monte de histórias de seu pai quando era mais novo, mais ou menos da sua idade. Um pai que ele nunca conheceu.
Voltava da casa da avó e ouvia sua mãe reclamando, "como eu tenho tanta falta de sorte? Perder 2 maridos em menos de 3 anos?" era assim sempre, acabava que no final de tudo, a mãe botava a culpa em Flávio.
Qualquer coisa errada que ele fazia, a mãe ia e batia, ou pior, batia e também castigava, o chamava de inútil. O torturava psicológicamente.
Acredita que quando tinha 10 anos, foi parar num hospital por causa da mãe? Ela lhe deu um soco tão forte na nuca, que ele perdeu o ar, dizem que ela ficou desesperada, mas Flávio duvidou, ele disse para as tias que se ela se procupasse tanto assim com ele, por que tinha batido? E as tias sempre respondiam que era para o bem da eduação dele.
Educação, educação... Flávio achava "educação" a coisa mais idiota do mundo, sempre era culpa da educação que ele tomava bronca. Ele sempre contava para a bola, um monte de coisas erradas que essa tal de educação fez (a bola sempre concordava). Dizia ele que um dia quebraram a janela do vizinho e botaram a culpa nele, mas na verdade foi a Educação. Também foi a Educação que quebrou o brinco da mamãe. Ela era uma safada!
Ele estava na rua, no portão de casa, com a bola no colo e chupando um picolé de uva. Então a mãe chegou do trabalho e viu ele. Ahhh! Pra que?! Ela xingou ele tanto, que as orelhas ficaram até vermelhas. Só parou porque a vizinha chamou a mãe de Flávio para ver a novela.
Um dia, a empregada que ajudava a mãe de Flávio se demitiu, não se sabe por que. E ela não achou ninguém para fazer a detetização na casa (aquele bairro é cheio de escorpiões, a prefeitura obrigava fazer detetização toda semana). Fazer detetização era fácil fácil! Era só pegar um veneno e por em volta do muro, que os escorpiões não entravam de jeito nenhum!
A mãe de Flávio era muito ocupada, trabalhava até no domingo, raramente tinha tempo para fazer a detetização. Então como não achou ninguém, sobrou para o pobre do Flávio. Ele recusou, pois falava que fedia muito. A mãe dizia "você não via a Juliana fazer detetização toda semana? É só fazer que nem ela uai!" Acabou que ele aceitou, também não queria morrer de picada de escorpião. Naquele fim de mundo? O hopital mais perto era a 60km dalí.
Então toda semana Flávio detetizava a casa (mas sem a máscara de proteção, a mãe sempre esquecia de comprar).
História vem, história vai, tem muita história para contar. Mas vou direto ao ponto. Isso foi no dia seguinte do aniversário de 12 anos de Flávio. Ele estava ajudando a mãe a organizar a casa, estava tudo uma bagunça! Meu deus! Tinha copo pra todo lado, o chão estava melando, tinha pedaço de bolo até na parede! A casa estava o caos.
Até que Flávio começou a passar mal. Mas começou a passar mal mesmo. Sentia dores fortes que arranhavam seus pulmões, tossia muito, e as vezes umas dores no estômago, como se fosse fincadas.
A mãe achou que era tudo uma farsa, só para não ter que trabalhar. Xingou ele mandando parar com essa "palhaçada" e voltar a trabalhar. Ele continuava a tossir fortemente e reclamar que estava doendo muito. A mãe foi e lhe deu três tapas na cara. Falando que era sua última chance.
Ele, sem escolha, voltou a trabalhar, mesmo passando mal. A bola observava tudo, cada detalhe, olhava para o menino dizendo "força".
Passaram alguns dias, e essa dor foi só piorando. Ficou de cama umas três vezes nos últimos dois meses, mas a mãe recusava a chamar um médico.
Mas teve um dia que a situação piorou, Flávio começou a tossir sangue, e uns pedaços de tecidos, estava com falta de ar e muitas dores, em várias partes do corpo. A mãe não teve escolha, teve que levá-lo ao médico, (aquele de 60 km), e Flávio foi internado em estado grave.
Depois de dois dias de exames, descobriram que Flávio estava intoxicado com uma substância usada para matar escorpiões, e que era de mais tempo.
Todo dia ia alguém dar notícias de Flávio para a bola, ela estava muito preocupada com o amigo. Queria ir visitá-lo no hispital, mas ninguém a levava.
Até que o pior aconteceu, foi na madrugada de uma terça-feira se não me engano, Flávio começou a entrar em um estado crítico, com muita, muita falta de ar. Precisou da ajuda de equipamentos, mas nada adiantou, não dava mais para salvá-lo.
A mãe entrou em lágrimas, resmungava que ele não usava as máscaras de proteção, que ela não merecia perder mais um na família. Que os únicos que tinha agora estavam distantes. Que a vida dela tinha acabado.
A mãe voltou para casa chorando mais ainda, viu a bola do menino jogada no quintal, esperando notícias, ela pegou a bola e apertando-a contra o peito, chorando e dizendo:
_Ele morreu, eu não acredito!
A bola levou um susto! Seu melhor amigo havia partido, sentiu um vazio no peito difícil de explicar.
A mãe decidira que não queria lembranças de ninguém na casa, jogou tudo fora, inclusive a bola.
Nunca mais se ouviu falar dela, dizem que ela saiu da cidadezinha e que nunca mais foi vista. Alguns dizem que ela se suicidou, outros dizem que ela está morando com um dos filhos mais velhos agora, outros já falam que ela se casou de novo e está vivendo no exterior.
Mas quem me contou essa história foi a própia bola, eu estava conversando com ela outro dia mesmo, ela me disse que depois que foi jogada fora, um menino de rua a achou, e que brinca com ela todo dia no campinho, com uma turminha bem legal, ela está super feliz. Mas adimite que sente muita falta do Flávio.
Quem não sentiria?
